BoJack Horseman: quase genial, quase hilário

BoJack Horseman: quase genial, quase hilário

Não sou lindo e quando eu nasci também não era. Mas durante um curto período que começou a partir do 7º mês e durou mais ou menos até o 4º ano da minha vida eu era muito lindo. Do tipo modelo infantil. Tão lindo que recebi propostas para trabalhar como modelo infantil. Infelizmente, minha mãe recusou por medo de ser um golpe e gosto de imaginar que, em dois universos paralelos minha mãe aceitou a proposta, mas só em um deles trabalhei como modelo mesmo, no outro eu moro na Europa, sem saber o valor que meus supostos pais pagaram por mim.

Minha vida de lindo começou a desmoronar subitamente quando minha mãe, preocupada com os afazeres diários de dona de casa, me deixou sozinho na cama de cima de um beliche. Como a lei de Murphy manda, a possibilidade daquilo dar muito errado aconteceu e eu cai de uma altura de mais de um metro e menos de dois metros e meio (pensa numa preguiça de procurar os tamanhos médios de um beliche…). Cai de cara no chão, sobre um caroço de feijão. A marca do caroço permanece até hoje, no lado esquerdo da minha testa atrapalhando toda simetria possível do meu rosto. Estava acabada assim a minha trajetória como lindo.

Essa queda, porém, parece não ter tido influência apenas na minha aparência física. Ele bagunçou levemente meu cérebro. Apesar de não ter prejudicado meu intelecto acima da média, próximo de gênio (isso também mudou em determinado momento da minha vida, mas isso é história para outro momento), a queda deixou traços na minha capacidade de avaliação. Isso significa que durante a vida toda, curti coisas de qualidade questionável. Como por exemplo a série da Netflix BoJack Horseman.

BoJack Horseman é sobre: traumas

Nessa cena, traumas

Tal como esse meu prólogo, BoJack Horseman é sobre traumas e suas consequências. BoJack é o famoso ex-ator em atividade, ou seja, vive dos louros ganhados em seus tempos áureos a frente do famoso sitcom noventistaHorsing Around e não tem a menor vontade e/ou capacidade de se reinventar. Como casualmente acontece com uma celebridade hollywoodiana, BoJack finge não entender sua decadência e não se preocupa com o futuro.

Na verdade, a maior parte das preocupações de BoJack estão no passado. Uma infância infeliz devido a relação conturbada dos pais, um início de carreira confuso e a dificuldade de se relacionar com as pessoas aparecem a todo momento em flashbacks para explicar o porquê do comportamento atual do ex-ator em atividade. Esse recurso, aliás, apesar de ser a característica principal da série, se torna cansativo com o tempo.

Também é sobre: personagens

Apesar de ter um roteiro extremamente centrado no protagonista, ainda sobra espaço para os diversos personagens da série se desenvolverem em seu entorno. Todd, personagem de Aaron Paul, é quase uma revisita (para não dizer plágio) a seu personagem em Breaking Bad, Jesse Pinkman. Desleixado e sem rumo na vida, Todd lembra muito o Pinkman antes do império da metanfetamina.

Ainda temos a vietnamericana Diane, escritora fantasma de na tentativa de escrever uma biografia fidedigna de BoJack se vê em conflito com os próprios dilemas. Diane é namorada do Senhor Peanutbutter, um ator que estrelou uma série concorrente de Horsing Arround e por isso deveria rivalizar com Horseman, mas Peanubutter admira muito seu colega. Por último, mas não menos importante, temos Princesa Carolyn, ex-namorada e empresária de BoJack Horseman, viciada em trabalho e frenética, mas sem tempo para sua vida particular.

Outros personagens recorrentes são apresentados e desenvolvidos no decorrer da série, cada um com seu tempo certo.

Por fim, é sobre: Antropomorfismo

Bojack é um cavalo-humano, Senhor Peanutbutter é um cachorro-humano e a princesa Carolyn é uma gata persa humana. Eles não estão isolados nesse universo, a variedade de personagens meio animais, meio humanoides é completa e isso acaba fazendo parte naturalmente das piadas da série, mas sem forçar a barra e focar apenas nisso.

Resumo

Uma excelente série para se distrair, sem o peso dramático das outras séries originais da Netflix, mas sem partir descaradamente para a galhofa como poderia acontecer com uma obra do tipo. Porém, a primeira temporada foi uma surpresa tão boa que a expectativa gerada estragou a segunda temporada para mim. Curiosamente, as críticas que a série recebeu indicam justamente o contrário, que a primeira temporada foi medíocre e a segunda foi genial.

Vale a pena conferir e tirar as próprias conclusões.

Anúncios

Demolidor: o homem com medo

Demolidor: o homem com medo

Aquele que nunca menosprezou o Demolidor uma vez na vida que atire a primeira pedra. Comigo a história não foi diferente. O motivo também deve ser o mesmo para todos: a sinopse do personagem parece forçada.

Quando ouvi da existência do Demolidor pela primeira vez, pensei “que cego nada, se ele usa seus poderes para enxergar, não é cego”. Essa é a visão (rá) deturbada que temos dos cegos, que só conseguiriam perceber o mundo tão bem ou melhor que nós se tivessem super poderes, que é impossível contornar a falta de um sentido. A representação do personagem no mal falado “filme do Ben Affleck” não ajudou em nada para mudar esse conceito, pelo contrário. O desespero por colocar efeitos especiais de última geração na película (hahaha que tosco se referir a filme desse jeito só para não repetir a palavra) só reforçou a sensação de que Matt enxergava sim, enxergava até mais do que pessoas sem deficiência visual.

visão de radar.jpg
A visão de radar do Demolidor parecia uma supervisão no “filme do Ben Affleck”.

Por isso, quando Netflix e Marvel anunciaram a nova série, não pude deixar de franzir a testa e me questionar: seria essa uma aposta ousada das duas empresas ou eu que nunca entendi bem o personagem? No fim, é um pouco dos dois. E ainda bem que essa aposta louca deu certo e me fez finalmente captar a essência do Demônio Atrevido, o homem sem medo.

 

Matt Murdok, a pessoa por trás dos óculos escuros é um personagem muito mais interessante e profundo do que aquele advogado louco por justiça que vi vez ou outro em algum episódio do glorioso desenho do Homem Aranha dos anos 90. Trata-se de um órfão, que perdeu seu pai para a violência que parece ser parte intrínseca da Cozinha do Inferno, a cidade que, mais tarde, Demolidor e o Rei do Crime tentam curar, cada um a sua maneira. Matt decide se tornar um advogado, por sua paixão pela justiça, mesma paixão que o leva a se tornar um justiceiro.

Sozinho, Matt seria um personagem interessante de se acompanhar. A evolução dessa sede de justiça, os desafios do início de carreira como advogado aliada a dificuldade em esconder sua outra faceta. Mas Matt não está sozinho. Na verdade, está muito bem acompanhado. Primeiro, tem a companhia de Fog, que é muito mais do que um sidekick, é um verdadeiro parceiro, aliado, comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia e amigão. Depois com a surpreendente Karen Page, que foge lindamente do padrão donzela em perigo. Tem força, personalidade, iniciativa.

Mas o que engrandece um herói é um vilão a sua altura e aqui temos um imenso vilão. Wilson Fisk já é grande, mas cresce muito mais com a impressionante atuação de Vincent D’Onofrio, sem dúvida merecedora de um Emmy. A construção de King Pin é tão boa quanto a do próprio Demolidor, dando a real ideia de onde vem a motivação para tanto ódio e a dualidade entre controle e descontrole do personagem.